Espiritualidade monástica

Sábado, 3 Janeiro, 2009 at 13:47 | In Espiritualidade | Leave a Comment
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O valor do silêncio


Três vezes por dia, tudo pára na colina de Taizé: o trabalho, os estudos bíblicos, os intercâmbios. Os sinos chamam à igreja para rezar. Centenas, por vezes milhares de jovens de países muito diversos através do mundo, rezam e cantam com os irmãos da Comunidade. A Bíblia é lida em várias línguas. No centro de cada oração comunitária, um longo tempo de silêncio é um momento único de encontro com Deus.


Silêncio e oração

Se nos deixarmos guiar pelo mais antigo livro de oração, os Salmos bíblicos, nós encontramos aí duas formas principais de oração: por um lado o lamento e o pedido de socorro, por outro o agradecimento e o louvor. De forma mais oculta, há um terceiro tipo de oração, sem súplicas nem louvor explícito. O Salmo 131, por exemplo, não é senão calma e confiança: «Estou sossegado e tranqüilo… Espera no Senhor, desde agora e para sempre!»

Por vezes a oração cala-se, pois uma comunhão tranqüila com Deus pode abster-se de palavras. «Estou sossegado e tranqüilo, como uma criança saciada ao colo da mãe; a minha alma é como uma criança saciada.» Como uma criança saciada que parou de gritar, junto da sua mãe, assim pode estar a minha alma na presença de Deus. Então a oração não precisa de palavras, nem mesmo de reflexões.

Como chegar ao silêncio interior? Por vezes calamo-nos, mas, por dentro, discutimos muito, confrontando-nos com interlocutores imaginários ou lutando conosco mesmos. Manter a sua alma em paz pressupõe uma espécie de simplicidade: «Já não corro atrás de grandezas, ou de coisas fora do meu alcance.» Fazer silêncio é reconhecer que as minhas inquietações não têm muito poder. Fazer silêncio é confiar a Deus o que está fora do meu alcance e das minhas capacidades. Um momento de silêncio, mesmo muito breve, é como um repouso sabático, uma santa pausa, uma trégua da inquietação.

A agitação dos nossos pensamentos pode ser comparada com a tempestade que sacudiu o barco dos discípulos, no Mar da Galiléia, enquanto Jesus dormia. Também nos acontece estarmos perdidos, angustiados, incapazes de nos apaziguarmos a nós mesmos. Mas Cristo também é capaz de vir em nosso auxílio. Da mesma forma que falou imperiosamente ao vento e ao mar e que «se fez grande calma», ele pode igualmente acalmar o nosso coração quando está agitado pelo medo e pelas inquietações (Marcos 4).

Fazendo silêncio, pomos a nossa esperança em Deus. Um salmo sugere que o silêncio é mesmo uma forma de louvor. Nós lemos habitualmente o primeiro verso do Salmo 65: « A ti, ó Deus, é devido o louvor ». Esta tradução segue a versão grega, mas na verdade o texto hebreu diz: «Para Vós, ó Deus, o silêncio é louvor». Quando cessam as palavras e os pensamentos, Deus é louvado no enlevo silencioso e na admiração.


A Palavra de Deus: trovão e silêncio

No Sinai, Deus falou a Moisés e aos Israelitas. Trovões, relâmpagos e um som de trompa cada vez mais forte, precediam e acompanhavam a Palavra de Deus (Êxodo 19). Séculos mais tarde, o profeta Elias volta à mesma montanha de Deus. Ali revive a experiência dos seus antepassados: tempestade, tremores de terra e fogo, e ele prontifica-se a escutar Deus falando-lhe no trovão. Mas o Senhor não está nos fenômenos tradicionais do seu poder. Quando o grande barulho pára, Elias ouve «o murmúrio de uma brisa suava», e então Deus fala-lhe (1 Reis 19).

Deus fala com voz forte ou numa brisa de silêncio? Temos de tomar como modelo o povo reunido ao pé do Sinai ou o profeta Elias? Provavelmente isto é uma falsa alternativa. Os fenômenos terríveis que acompanham o dom dos dez mandamentos sublinham a sua importância. Guardar os mandamentos ou rejeitá-los é uma questão de vida ou de morte. Quem vê uma criança correr em direção a um carro que passa, tem muitas razões para gritar tão alto quanto consiga. Em situações análogas, os profetas anunciaram a palavra de Deus de forma a fazer zumbir as orelhas.

Palavras ditas com voz forte fazem-se ouvir, impressionam. Mas sabemos bem que elas quase não tocam os corações. Em lugar de acolhimento, elas encontram resistência. A experiência de Elias mostra que Deus não quer impressionar, mas ser compreendido e acolhido. Deus escolheu «o murmúrio de uma brisa suave» para falar. É um paradoxo:

Deus é silencioso e no entanto fala

Quando a palavra de Deus se faz «o murmúrio de uma brisa suave», ela é mais eficaz do que nunca para transformar os nossos corações. A tempestade do monte Sinai abria fendas nos rochedos, mas a palavra silenciosa de Deus é capaz de quebrar os corações de pedra. Para o próprio Elias, o silêncio súbito era provavelmente mais temível do que a tempestade e o trovão. As poderosas manifestações de Deus eram-lhe, em certo sentido, familiares. É o silêncio de Deus que desconcerta, porque é muito diferente de tudo o que Elias conhecia até então.

O silêncio prepara-nos para um novo encontro com Deus. No silêncio, a palavra de Deus pode atingir os recantos escondidos dos nossos corações. No silêncio, ela revela-se «mais penetrante do que uma espada de dois gumes, penetra até à divisão da alma e do corpo» (Hebreus 4,12). Fazendo silêncio, deixamos de esconder-nos diante de Deus, e a luz de Cristo pode atingir, curar e mesmo transformar aquilo de que temos vergonha.

Silêncio e amor

Cristo diz: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei» (João 15,12). Precisamos de silêncio para acolher estas palavras e pô-las em prática. Quando estamos agitados e inquietos, temos tantos argumentos e razões para não perdoar e para não amar facilmente. Mas quando temos «a nossa alma em paz e silêncio», estas razões desaparecem. Talvez por vezes evitemos o silêncio, preferindo-lhe qualquer barulho, palavras ou distrações quaisquer que elas sejam, porque a paz interior é uma questão arriscada: torna-nos vazios e pobres, dissolve a amargura e as revoltas e leva-nos ao dom de nós mesmos. Silenciosos e pobres, os nossos corações são conquistados pelo Espírito Santo, cheios de um amor incondicional. De forma humilde mas certa, o silêncio leva a amar.

Fonte:  Taizé

Já havia ouvido falar sobre Taizé? Qual impressão teve do texto? Também acha que intercalar a vida com momentos de silêncio é interessante? Se achar interessante partilhe suas impressões num post.

Cantiga por um ateu

Sábado, 3 Janeiro, 2009 at 12:26 | In Espiritualidade | Leave a Comment
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Em meio a tantas doutrinas hermafroditas e mutantes neste nosso mundo com tantas facetas de expressão, este post pode parecer “profeticamente paradoxal”, mas não o é. O “sangue de mártires (ainda) é (e sempre será) sementeira de cristãos”.

A canção “Cantiga por um ateu”, do vinil de 1974 do Padre Zezinho trás versos ainda atuais e extremamente necessários, tanto a fé dos ‘crentes’, quanto a fé dos ‘descrentes’, convidando a uma apologética firme e serena: “Eu sei que da verdade não sou dono /  Eu sei que não sei tudo sobre Deus. / Ás vezes, quem duvida e faz perguntas, / É muito mais honesto do que eu.”

Não é uma consagração ao ateísmo, mas apresenta o diálogo amoroso e compreensivo com aqueles que confessam uma fé diferente da “não-crença” e que indagam procurando respostas.

Quando preciso, dependendo da situação dou o meu abraço, aperto de mão ou então um “vade retro”. Tudo uma simples questão de xibolete.  (Juízes 12,1-6)

Simples assim!

Cantiga Por Um Ateu (pe. Zezinho, scj – 1974)


“Um grande amigo meu

Que a sua fé perdeu,

No dia de Natal me procurou.

Contou-me a sua vida

Tão cheia de incertezas

Com tanta honestidade

Que me fez chorar.

E a lágrima teimosa caindo no meu rosto

Lavou meu preconceito de cristão.


Eu sei que da verdade eu não sou dono,

Eu sei que não sei tudo sobre Deus.

Às vezes, quem duvida e faz perguntas,

É muito mais honesto do que eu.


Ao grande amigo meu

Que a sua fé perdeu,

No dia de Natal me confessei.

Contei-lhe a minha vida

Tão cheia de procuras

Com tantas esperanças

Que ele até sorriu.

E aquele riso aberto

Nos trouxe bem mais perto,

Lavou seu preconceito de ateu.


Por este amigo meu

Que a sua fé perdeu,

Naquele mesmo dia eu fui rezar.

E a minha prece amiga

Gerou esta cantiga

Que eu fiz pensando muito

Em meu país cristão.

Às vezes muita gente

Não crê no que acredita

E afasta o seu irmão da religião.”

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