Louvação da Desmemória
Domingo, 18 Janeiro, 2009 at 15:07 | In Poesia | Leave a CommentTags: Bertold Brecht, desmemória, Louvação, Poemas e Canções
A cada novidade que o dia nos trás, vem oportuna forma de desmemoriar o olhar anterior que tínhamos sobre algo ou alguém. Daí, não só o olhar, mas a leitura é renovada trazendo o frescor da novidade do paradoxo desmemoriado.
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“Boa é a desmemória!
Sem ela, como iria
Deixar o filho a mãe que lhe deu de mamar,
Que lhe emprestou força aos membros
E que o retinha para o experimentar.
Ou como iria o aluno deixar o mestre
Que lhe emprestou o saber?
Com o saber emprestado,
Cumpre ao discípulo pôr-se a caminho.
Na casa velha
Os novos moradores entram;
Se lá estivessem ainda os que a construíram,
Seria a casa pequena demais.
O forno esquenta, e do oleiro
Ninguém se lembra mais. O lavrador
Não reconhece o pão depois de pronto.
Como levantar-se de novo o homem de manhã, sem
O esquecimento que apaga os rastros da noite?
Como iria, quem foi ao chão seis vezes,
Levantar-se pela sétima vez
Para amanhar o pedregoso chão,
Para subir ao perigoso céu?
É a fraqueza da memória que dá
Força à criatura humana.”
(Brecht, Bertold – Poemas e Canções. Tradução de Geir Campos. Editora Civilização Brasileira, 1996. p.120.)
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