Lá se vão quase 10 anos…
Satyagraha e 11 de setembro
"Lutar com palavras
é luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã."
(Carlos Drummond de Andrade, “O lutador”)
Neste mundo de paradoxos cada vez mais disformes, o calor do sol não me permite devanear muito e vou eu sentando à sombra. Como já fiz e decidi, esses anos após o 11 de setembro deveriam ser na medida do possível um momento de reflexão. Acabei trazendo um pouco de Gandhi, de Drummond, de Agostinho de Hipona (adicionados ao badalado imperialismo americano) para um mesma mensagem…coisas de fim de semana.
Na mídia, durante esses anos foram escritas matérias e mais matérias, teorias conspiratórias e documentários sobre o 11 de setembro. Eu mesmo assisti um filme americano (entre vários que surgiram), com Nicolas Cage, na época lançado nos USA e que depois chegou ao Brasil (World Trade Center – 11/9), sobre esse ataque. Onde retrata ação dos bombeiros de Nova York diante de tal evento. Lamentavelmente o filme não faz juízo sobre a importância de se investigar o porque de uma investida de tal porte, apenas apresenta o drama das famílias dos bombeiros e especificamente o resgate de dois deles. Fraco! E não somente fraco, mas chega a ser até mesmo omisso e alienante sobre a inevitável maneira de como encarar o antes e o depois de tal violência.
O "diálogo-resposta"(?) americano como conhecemos é mais fragmentado e quebradiço do que se possa imaginar. Teve no governo Bush o seu o ponto alto do nacionalismo fanático, que parece não perceber que apenas alimentou hostilidades e islamofobias, que submersas esperam um momento de distração para vir a tona, como posteriormente na Espanha e na França. Obama assumiu na esperança de mudar esse quadro. Infelizmente a ocupação de tropas no exterior ainda existe, pouco mudou.
Dentre as inúmeras abordagens que li na mídia, a que me foi mais interessante foi um artigo de José Castello (Prosa e Verso – 09/11) sobre Noam Chomsky, um filósofo americano, tido como um dos mais importantes reformadores da lingüística moderna. O jornalista apresenta: "Em um mundo de intelectuais especializados e calados, reclusos em seus nichos de poder e quase sempre cheio de pudores, a figura desenvolta e enérgica de Chomsky se destaca." Ele lança dois livros sobre o assunto, "Ambições imperiais – O mundo pós 11 de setembro" e "Piratas e imperadores antigos e modernos – O terrorismo no mundo real", onde inicia o segundo e com uma história de Santo Agostinho: "Um dia, Alexandre o Grande pergunta a um pirata que acaba de capturar: ‘Como você ousa molestar os oceanos?’. O esperto pirata responde a Alexandre com outra pergunta, que na verdade é a mesma pergunta: ‘E você, como ousa desafiar o mundo?’. E, sem deixar que Alexandre respire, ele arremata: ‘Como ajo com um pequeno navio, sou chamado de ladrão. Mas você, que o faz com uma marinha enorme, é chamado de imperador".
Chomsky, segundo José Castello, diz em seus livros que tanto o múltiplo atentado de 11 de setembro contra os EUA e a reação posterior aos ataques "são consideradas ações corretas, justas e até nobres", diz ainda, "Aliais, os dois crimes são justificados quase com as mesmas palavras". (…) Terrorismo passa a designar "os crimes dos outros e não os nossos".
Os familiares das vítimas, segundo a reportagem, não conseguindo se manter unidos, se dividiram entre mais de 20 associações que divergem entre si, desde a valores de indenizações até a forma com que se deve dispor o nome das vítimas nos memoriais.
É aí que eu penso que haveria um espaço oportuno para a Satyagraha de Mahatma Gandhi. Este foi um dos principais, senão o mais importante e marcante elemento de seus ensinamentos, que nada mais é: o princípio da não-agressão, uma forma não-violenta de protesto. Nem por isso "passiva" como talvez se pense. Satya pode ser traduzida como verdade e agraha como busca; assim pode-se entender satyagraha como a "busca da verdade", o "insistir pela verdade".
Caminhos semelhantes também percorremos em nossas cidades e em nossa terra brasileira, pois sem essa insistente busca realizada "de coração sincero" pelo bem comum despojado de pré-conceitos, também não encontraremos libertação e solução para as armadilhas políticas nacionais e internacionais, e as mesmas se tornarão historicamente ainda mais inalcançáveis.
Não me julgo tolo,
apenas venho e partilho num intento,
num dia de vida,
no meio da praça,
como uma carta num post
Insisto (…)
guardo sigilo
do pensamento sibilado
das minhas e vossas tolices.
"Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
Iludo-me…"
E o mesmo Drummond nos convida:
"Vamos fazer um poema ou qualquer outra besteira." (?)
Que pelo menos conduza à PAZ em flores de quaresmeira. Eu deixo aqui minhas saladas-tolices.
Sejam elas sandices
o são de boa intenção.
Partilhadas, poetizadas,
surtadas…ou não.
(Guto Santos)
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