Refletindo com Victor Hugo

 

 

" Seja como os pássaros que,


ao pousarem, um instante,

sobre os ramos muito leves,

sentem-nos ceder, mas cantam!

Eles sabem que possuem asas ".

(Victor Hugo)*

 

 

          A tristeza, o medo, a insegurança e a preocupação, por vezes, abatem o espírito humano e são muitas vezes implacáveis. Eis que alguém lembra: “Não sejais como os que não tem esperança” (cf. 1Ts 4,13). ‘Onde está o teu tesouro’ está também a preciosa esperança do seu coração. A de dar passos rumo ao desconhecido e não perder o bom humor e a alegria interior. Esperança de encontrar a verdadeira liberdade sabendo sermos lépidos também diante das dificuldades e obstáculos, pois temos boca para falar, mas podemos cantar, temos pés para caminhar mas podemos correr. “Aqueles que contam com o Senhor renovam suas forças; Ele dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para a frente sem se fatigar” (cf. Is 40,31)

 

 

 

 

 

 

 

* (Victor-Marie Hugo nasceu em Besançon em 26 de fevereiro de 1802 e morreu em Paris a 22 de maio de 1885. Poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e orador, deixou obra extensa e variada. Exerceu influência profunda sobre os escritores de todos os países ocidentais, em particular os de idiomas românicos. No Brasil entre seus principais seguidores destaca-se Castro Alves. “Les misérables” (Os Miseráveis) é uma das principais obras escritas pelo escritor francês, foi publicada em 3 de abril de 1862 simultaneamente em Leipzig, Bruxelas, Budapeste, Milão, Roterdã, Varsóvia, Rio de Janeiro e Paris, nesta última cidade foram vendidos 7 mil exemplares em 24 horas. Victor Hugo  é também autor das clássicas obras, “Os Trabalhadores do mar” e “O Corcunda de Notre Dame”, entre outras." Muitas delas tiveram inúmeras adaptações para o cinema, teatro e televisão no decorrer das décadas.)

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Haverá ainda no mundo gesto interessado no bem estar do outro,

tal como dar de comer a quem tem fome,

tal como dar de beber a quem tem sede? 

 

 

 

 

“Haverá ainda,

no mundo

coisas tão simples

e tão puras

como a água

bebida na

concha das mãos?”

(Mário Quintana)

O SEU SANTO NOME

 

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.

 

 

(Poema extraído do livro "CORPO", Carlos Drummond de Andrade, editora Record)

A vida é um longo caminhar

.

A vida é um longo caminhar

Eu, às vezes anseio, como os loucos,

Pela mocidade que já passou.

Então os problemas eram poucos

E o meu coração feliz muito amou.

Para a mocidade há um novo mundo

Um coração livre, uma nova ânsia…

Mas eu ainda gostava de voltar

Aos dias mágicos da minha infância…

Mas agora que o tempo já passou,

Há um novo tipo de aventura e paz,

E o longo caminho que se iniciou

Deixou a infância muito para trás.

Houve uma determinada libertação

Na estrada do meu longo caminhar;

Eu que dei sempre o meu melhor…

Espero em Deus,  descansar.

Para lá da nossa mocidade

Há um tempo para envelhecer,

Tempo bom para uma reflexão,

Uma vida para relembrar e rever…

A vida é uma longa caminhada,

de alegrias, incertezas e aflição,

dias e noites de medo e insônias,

enredos e anseios do coração.

Vêm os problemas, ai quantos …

Que recomeçam sempre iguais;

E sempre, sempre, pedaços de alma.

Novas fraquezas e novos ideais.

São as paixões de cada dia,

São esses os pecados meus;

Mas o nosso já longo caminhar

Aumenta a nossa fé em Deus.

Por razões que não entendemos

Há na vida muitas inundações

Que nós temos que suportar,

Nas marés altas das emoções…

O longo caminhar da vida, afinal,

Deve encher o nosso coração,

Para atingir este grande ideal :

- Viver e amar com orgulho cristão!

Todas as coisas têm o seu tempo

E tudo o que existe

Debaixo dos céus

Tem a sua hora (Ecl. 3,1)

(John Nascimento)

Canção para os fonemas da alegria

Thiago de Mello

A Paulo Freire

Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e pode ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:
porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor

Peço licença para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
ele atravessa os campos espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

Santiago do Chile,
primavera de 1964.
©Thiago de Mello
In, Faz Escuro Mas Eu Canto, 1998
Editora Bertrand Brasil Ltda
Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Cantiga por um ateu

Em meio a tantas doutrinas hermafroditas e mutantes neste nosso mundo com tantas facetas de expressão, este post pode parecer “profeticamente paradoxal”, mas não o é. O “sangue de mártires (ainda) é (e será) sementeira de cristãos”.

A canção “Cantiga por um ateu”, do vinil de 1974 do Padre Zezinho trás versos ainda atuais e extremamente necessários, tanto à fé dos ‘crentes’, quanto aos ‘descrentes’, convidando em seus versos a um encontro honesto e sereno: “Eu sei que da verdade não sou dono /  Eu sei que não sei tudo sobre Deus. / Ás vezes, quem duvida e faz perguntas, / É muito mais honesto do que eu.”

Não é uma consagração ao ateísmo, mas apresenta o diálogo amoroso e compreensivo com aqueles que confessam uma fé diferente da “não-crença” e que indagam procurando respostas.

Quando preciso, dependendo da situação dou o meu abraço, aperto de mão ou então um “vade retro”. Tudo uma simples questão de xibolete (Juízes 12,1-6).

Simples assim!

Cantiga Por Um Ateu (pe. Zezinho, scj – 1974)



“Um grande amigo meu

Que a sua fé perdeu,

No dia de Natal me procurou.

Contou-me a sua vida

Tão cheia de incertezas

Com tanta honestidade

Que me fez chorar.

E a lágrima teimosa caindo no meu rosto

Lavou meu preconceito de cristão.


Eu sei que da verdade eu não sou dono,

Eu sei que não sei tudo sobre Deus.

Às vezes, quem duvida e faz perguntas,

É muito mais honesto do que eu.


Ao grande amigo meu

Que a sua fé perdeu,

No dia de Natal me confessei.

Contei-lhe a minha vida

Tão cheia de procuras

Com tantas esperanças

Que ele até sorriu.

E aquele riso aberto

Nos trouxe bem mais perto,

Lavou seu preconceito de ateu.


Por este amigo meu

Que a sua fé perdeu,

Naquele mesmo dia eu fui rezar.

E a minha prece amiga

Gerou esta cantiga

Que eu fiz pensando muito

Em meu país cristão.

Às vezes muita gente

Não crê no que acredita

E afasta o seu irmão da religião.”

O sorriso do choro

Melodia do chorinho faceiro


A música tem uma mística…
um malabarismo quântico de física aeróbica avançada,
mas ninguém se prende a essa fato.

Num só instante de melodia, meu metabolismo do tempo e memória
convulsiona-se numa frenética erupção de sonhos, de encantos, pensamentos e possibilidades.

Não me iludo, não me engano, sei que toda canção tem começo e fim,
Fico no meio, a ilusão volta a mim.

No próximo passo onde pisarei,(sonâmbulamente?)
Em terra boa, em terra firme?

Não sei…apenas ouço e sigo o que ouço
na codificação criptografada do simples som da natureza.

A música no fim, ou em seu começo de mim
não me permite previsão dos sentidos
pois justamente nessa fusão com as notas do ser
teço melodia intangível engravidado pelo som
no justo instante do toque eterno que soa e ressoa na cavidade
do meu poético peito que se rende ao encanto.

Fugir é bobagem que nunca pensei
finco o som, combato minha estupidez
e sonho… pois essa permissão é dada ao meu eu tolo.

Meu violão companheiro, filosofa a melodia que surge aspergindo meu coração.
por vezes fala alto e revela meus segredos
por outras é discreto no seu som.

E assim sendo, quem o ouve acaba esquecendo de onde veio a tal melodia.

Mas nem ele, nem eu nos calamos ou nos acalentamos plenamente
teimosamente nos desnudamos no som
no ritmo da novidade incauta
do sonho que apunhala-se num faceiro haraquiri cantado
levemente acariocado
na transpiração do ritmo chorado do chorinho
que enxuga o coração num sorriso melodia
esperança-revelação-mistério contido na canção
que já finda e deixa seu recado sonoro
o toque inodoro da pessoa que ressoa no badalo da criação do universo em expansão misteriosa.

E componho enfim a melodia faceira.


(Guto Santos)

Mãe e filho

Pequena poesia

 

 

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

 

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…

Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

 

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

 

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

 

Pra que o dia fosse enorme,
bastava toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…

 

 

(Sebastião da Gama – 1924 – 1952)

Cien Sonetos

Cien Sonetos

tulipas

Soneto XVII


(Cien sonetos de amor – Soneto XVII – Pablo Neruda)

“No te amo como si fueras rosa de sal, topacio

o flecha de claveles que propagan el fuego:

te amo como se aman ciertas cosas oscuras,

secretamente, entre la sombra y el alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva


dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,

y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo

el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,


te amo directamente sin problemas ni orgullo:

así te amo porque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,

tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,

tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.”


~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

“Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio

ou flecha de cravos que propagam o fogo:

te amo como se amam certas coisas escuras,

secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva


dentro de si, escondida, a luz daquelas flores,

e graças a teu amor vive escuro em meu corpo

o estreitado aroma que subiu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,


te amo diretamente, sem problemas nem orgulho:

assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que não sou nem és,

tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,

tão perto que se fecham teus olhos com meu sono.”