Ensaiando

“Conhece-te a ti mesmo” – Eu e o Espelho


Num mundo cada vez mais ruidoso e com muitas distrações, a percepção do próprio ‘eu’ é fundamental para o salutar convívio em toda forma de relacionamento com o outro, com a própria saúde espiritual e no combate a anorexia pastoral.

Um pouco do mito da caverna, da trave no próprio olho e do “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates. Fiquemos pois, com tudo o que for bom e o que possa nos oferecer boa e proveitosa reflexão e que resultados proveitosos surjam ao estarmos com o nosso próximo, tenhamos sentimento fraterno, filial, materno, paterno ou mesmo sentimento amoroso de “par romântico” de biscoito casadinho.


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Eu e o espelho
Marco Antônio Sales
Psicoterapeuta Existencial formado pela SAEP
Pós-graduando em Filosofia Contemporânea – UERJ

“Ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém”.

(Kierkegaard, Soren Aabye – O Desespero Humano – Doença até a Morte” – 1849)

Ao ler o texto de Kierkegaard acima citado, espantei-me em ver a grande percepção do filósofo dinamarquês diante de um fato aparentemente simples: “olhar-se no espelho”. Talvez seja o mais “corriqueiro” dos atos humanos que é realizado no cotidiano de cada pessoa, inserindo contudo uma perspectiva toda especial no que diz respeito à existência individual.

Segundo Kierkegaard, para que o indivíduo se veja no espelho, torna-se uma condição importante que ele tenha um “conhecimento” prévio de si, ou seja, que o ser humano veja, sinta e perceba quem ele está sendo naquele instante, que ele tenha consciência-de- si.

Quando negamos a nós mesmos a possibilidade de obter essa consciência-de- si, não nos dando conta do que sentimos, pensamos, percebemos e agimos, ampliamos de tal forma essa desconexão individual, que simplesmente usamos o “piloto automático” interno diariamente, que nos leva a um distanciamento cada vez mais profundo de uma vida saudavelmente integrada, visto que nos encontramos longe de nós mesmos.

Um sábio oriental um dia falou: “Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo – e este é maior” (LAL, P. – The Dhammapada, 1967). Por incrível que possa parecer, a idéia quantitativa de sucesso na vida (“conquistar um exército”) tem sido a mais promovida no mundo ocidental, em detrimento do cultivo de uma idéia mais qualitativa de sucesso, cuja promoção busca a excelência da saúde individual (conquistar a si mesmo). Sem a devida reflexão do quanto a pessoa se violenta para simplesmente “possuir coisas”, o ser humano segue abrindo mão de “ter” a si mesmo, ou seja, de “ser a sua grande conquista”. É esse paradoxo da existência que leva o indivíduo a se perguntar: quem é essa pessoa que eu vejo no espelho? Esse sou eu? Eu não acredito no que estou vendo!

Erving e Miriam Polster falam que “as pessoas são notoriamente nebulosas, até mesmo distorcem a percepção que têm de si mesmas. Elas escutam gravações de suas vozes ou se vêem em filmes, e ficam incrédulas” (Polster, Erving & Polster, Miriam. “Gestalt Terapia Integrada”, 1979). Esta postura incrédula diante da percepção-de-si, é muito bem ilustrada através do filme de Bruce Joel Rubin, “My Life”(Minha Vida), protagonizado por Michael Keaton e Nicole Kidman.

Na história, Keaton representa um “bem-sucedido” relações públicas de uma empresa, que se vê surpreendido pela vida repentinamente, quando se acha acometido de um câncer terminal. Vendo-se nos momentos finais de sua vida e, percebendo o pouco tempo de que dispunha para receber o filho que brevemente nasceria, começa a fazer uma fita de vídeo, que para ele seria uma espécie de lembrança de si para o seu filho, a fim de que este mais tarde o “conhecesse”. Dando continuidade a este seu empreendimento, o protagonista fica perplexo com a opinião que alguns de seus colegas dão sobre sua pessoa. Perplexo diz: “o que é isso? Será que eu sou assim?”.

No decorrer da trama ele busca, com a ajuda de sua esposa (Nicole Kidman), um tratamento alternativo para a sua “doença”, que começa a clarificar o afastamento de si no qual ele vivia, cujas conseqüências agora ele estava sentindo, ou seja: a doença, os conflitos internos e as dificuldades de relacionamentos.

Para poder lidar com estas questões, ele começa a aprender que a grande viagem para realizar grandes coisas na vida não é para fora, mas para o interior de si mesmo, objetivando- se enquanto pessoa.

A objetividade de si “consiste pois em um processo de exploração de si, a procura do eu autêntico para além da imagem de si que o indivíduo quer projetar e aquela que de fato apresenta aos outros” (Mailhiot, Gérard Bernard. “Dinâmica e Gênese dos Grupos”, 1991). Penso que seja esta exploração de si mesmo, o conhecer-se previamente ao qual Kierkegaard se referia, que dará ao indivíduo uma percepção clara de quem está do outro lado do espelho.

Essa busca de si pode apaziguar temores mil que se fundamentam nas fantasias e fantasmas por nós criados ao longo da vida, pode integrar as partes distanciadas do nosso ser, permitindo-nos ter um bom contato com a nossa própria pessoa e com o viver do outro. Isto é ilustrado por E. E. Cummings no seu poema, a saber:


“Um total estranho, num dia negro
Bateu, tirando de dentro de mim o inferno
E ele achou difícil o perdão porque
(assim se revelou) ele era eu mesmo –
Mas agora aquele demônio e eu
Somos amigos imortais”.


Fica então a pergunta: “Quem é a pessoa que você vê ao olhar-se no espelho?”

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3 comentários em ““Conhece-te a ti mesmo” – Eu e o Espelho

  1. LUCIENNEALENCAR
    sábado, 5 junho, 2010

    Nossa!! Bom demais o texto. Gostei muito. Parabéns!!!
    Lucienne Alencar

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    • Guto Santos
      sábado, 5 junho, 2010

      Uma espiadela no nosso espelho de estimação não faz mal a ninguém não é mesmo?! Que bom que gostou. Esse tema tem é pano pra manga 😉

      Curtir

  2. Economia-UEFS
    domingo, 1 janeiro, 2012

    Ao lermos textos como este, sentimos-nos inspirados a buscar quem de fato somos, o que queremos ser, qual a visão que as pessoas têm a nosso respeito. Então quero dizer que é muito gratificante navegarmos pela internet e encontrarmos fonte tão rica de conhecimento. Parabéns pela postagem acredito que será muito útil na ajuda as pessoas que buscam se entender enquanto passam pela TERRA.

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Publicado às domingo, 28 dezembro, 2008 por em Refletindo e marcado , , , , , , .

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