Ensaiando

Big Brother, a Modernidade Líquida


espiandoNão procuro o BBB, mas ele sempre me persegue. Mais uma vez o midiático bombardeio massivo me dá uns incômodos tapinhas no ombro. Este ‘reality show’ parece-me meio que um treino de desvalor, desmembrado em aparentes e inocentes futilidades, mas que possuem forte potência subliminar.

Em sua origem, o Big Brother (Grande Irmão) é o personagem central do romance “1984”, publicado em 1948, pelo escritor inglês George Orwell. “Preocupado com o totalitarismo soviético, Orwell imagina uma sociedade dominada por um ditador, que se autodenomina “Grande Irmão”. Nela, os cidadãos são permanentemente vigiados por câmeras instaladas em toda a parte, a começar de suas casas” (Redovino Rizzardo). Idéia que Hollywood já empregou em diversas variantes cinematográficas.

A franquia do programa Big Brother Brasil tem parceria da Globo Endemol e da produtora holandesa Endemol Internacional (especializada em reality shows). Atualmente cerca de vinte países também produzem o seu Big Brother particular, muitos destes ética e moralmente ainda mais ‘deteriorados’ que o programa brasileiro.

Outro dia lendo recortes com comentários do sociólogo polônes Zygmunt Bauman, o sublinhado apenas se torna mais forte e percebo (ou fico ainda mais convicto que) a eficaz e sutil engrenagem do bombardeio da mensagem, que repetida parece tomar forma de consumo necessário para viver e/ou preencher porventura algum vazio existencial, faz morada.

Segundo Bauman, “ao votar pela eliminação/despejo deste ou daquele participante, os telespectadores podem ser guiados por diferentes preferências e ideais – mas tendo registrado seus votos, todos se tornam cúmplices das práticas de exclusão, e isso é o que realmente importa. A idéia de que, regularmente, um certo número de pessoas devem ser jogadas fora e simplesmente por que devem (pelas regras da ‘realidade’) ser banidas num momento, é assim reconfirmado e alçado ao nível de verdade auto-evidente. Eliminações semanais confirmam a onipotência da exclusão da mesma maneira como as missas dominicais confirmam a existência de Deus…

E o fato de que milhões de telespectadores estão tomando parte nessa cerimônia torna esse fenômeno (de tomar uma antipatia pessoal como motivo suficiente para negar os direitos daqueles de quem não se gosta) uma ‘norma social’… Tendo participado ativamente do ritual algumas vezes, a pessoa se sentirá muito menos inclinada a questionar, e menos ainda a desafiar, o sistema quando chegar a sua vez de ser a vítima…”. (Prosa & Verso, 23-02-2008- pág. 3)

Pois é o momento quando se aplica o “bordão-ladainha” de que tudo não passa somente de um ‘jogo’. “O programa sacrifica o que o ser humano tem de melhor: a capacidade de estabelecer relações verdadeiras, baseadas na gratuidade e na sinceridade”. (Redovino Rizzardo)

O BBB é a metáfora do estorvo que ainda toma conta da cultura do nosso país.

(Guto Santos)

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Publicado às sexta-feira, 9 janeiro, 2009 por em Cultura e Comportamento e marcado , , , , , , .

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