Ensaiando

Louvação da Desmemória


A cada novidade que o dia nos trás, vem oportuna forma de desmemoriar o olhar anterior que tínhamos sobre algo ou alguém. Daí, não só o olhar, mas a leitura é renovada trazendo o frescor da novidade do paradoxo desmemoriado.

“Boa é a desmemória!

Sem ela, como iria

Deixar o filho a mãe que lhe deu de mamar,

Que lhe emprestou força aos membros

E que o retinha para o experimentar.

Ou como iria o aluno deixar o mestre

Que lhe emprestou o saber?

Com o saber emprestado,

Cumpre ao discípulo pôr-se a caminho.

Na casa velha

Os novos moradores entram;

Se lá estivessem ainda os que a construíram,

Seria a casa pequena demais.

O forno esquenta, e do oleiro

Ninguém se lembra mais. O lavrador

Não reconhece o pão depois de pronto.

Como levantar-se de novo o homem de manhã, sem

O esquecimento que apaga os rastros da noite?

Como iria, quem foi ao chão seis vezes,

Levantar-se pela sétima vez

Para amanhar o pedregoso chão,

Para subir ao perigoso céu?

É a fraqueza da memória que dá

Força à criatura humana.”

(Brecht, Bertold – Poemas e Canções. Tradução de Geir Campos. Editora Civilização Brasileira, 1996. p.120.)

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Publicado às domingo, 18 janeiro, 2009 por em Poesia e marcado , , , .

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