Ensaiando

O sacerdote e os livros


 

 

A mídia esqueceu Dom Paulo

 

Por Deonísio da Silva em 31/3/2009

“A técnica do livro em São Jerônimo”, de Paulo Evaristo Arns, Editora Cosac Naify, São Paulo, 2009.

Figura tão importante na luta contra o golpe de 1964, que em 1º de abril completa 45 anos, e nas batalhas travadas contra a tortura, a censura e pela redemocratização do Brasil, Dom Paulo Evaristo Arns anda esquecido da mídia. Doente, está recolhido há alguns anos.

Não tivemos tempo, no calor daquelas horas, dada a urgência da práxis política, de apreciar o seu trabalho intelectual. É oportuno lembrar a tese de doutor em Letras, que ele defendeu na Sorbonne, em francês, publicada em português em 1993, pela Imago. Estava há vários lustros fora do comércio e das livrarias e, por iniciativa da editora Cosac Naify, voltou. Intitula-se A técnica do livro em São Jerônimo.

Tal como hoje, quando se impõe o impasse entre o papel e o eletrônico, ao tempo de São Jerônimo, que nasceu em 347 e morreu em 419 ou 420, o papiro dava mostras de esgotamento, pois já era difícil encontrá-lo, principalmente no deserto, onde vivia o tradutor da Bíblia para o latim. Notemos que, naquela na época, sem manuscrito não havia autores nem leitores.

Desvendando o modo de produção do livro, Dom Paulo mostra-se exímio filólogo, detendo-se nas raízes etimológicas das palavras, como já começa a fazer à pág. 22, quando explica por que razão o latim charta, papel ou couro, do grego chartes, folha de papyros, papiro, não designa a epistula, carta.

Charta é o meio utilizado, papiro ou couro; epistula designa o conteúdo. A História fez com que charta tomasse o lugar de epistula, a ponto de, no português, as próprias epístolas dos apóstolos serem denominadas cartas.

 

O pergaminho e o papiro

Mais tarde, para fazer breves anotações, Jerônimo usará o diminutivo chartula, designando os pequenos pedaços de papel onde escrevia idéias gerais que depois seriam desenvolvidas. A melhor tradução para chartula seria fichinha, e não cartinha. A palavra chartae, plural de charta, aparece também como arquivo quando ele relata que o imperador Teodósio I mandou matar o cônsul Hesíquio. Seu crime? Subornar um taquígrafo.

Já a schedula, folha, é a folha de couro ou a casca de árvore onde o taquígrafo realiza as transcrições, compondo o rascunho, que serão corrigidas antes de serem fixadas no manuscrito.

Rascunho é palavra de étimo espanhol. Em latim, essas anotações, correções e emendas eram conhecidas como schedulae, plural de schedula, assim definida como emendatur (a ser emendado). Scheda virou cédula no português e compõe também o étimo do inglês schedule, lista, programa, relação, horário etc. Portanto, explica, didático, Dom Paulo: "Primeiro a palavra charta significa folha; depois pode significar fichinha ou rascunho; e, enfim, no plural, arquivos."

Foi graças a São Jerônimo e seus colegas, que escreviam em latim, que o pergaminho venceu o papiro. Os monges sabiam que seus escritos não eram efêmeros. Por isso, preferiam o pergaminho ao papiro, mais elegante, porém facilmente rasgável, ao contrário do pergaminho, organizado em códices, e não em rolos.

 

Os caminhos da escrita

Os copistas ensejavam roubos, subornos e muita confusão. Santo Agostinho e São Jerônimo brigaram feio porque um texto do segundo, discordando do primeiro, veio a público antes que chegasse ao destinatário. O público, que nesta época era composto de algumas dezenas de pessoas, leu bem antes de Agostinho as discordâncias de Jerônimo. Foi um dos primeiros furos.

Furo, antes de designar notícia dada em primeira mão, indicava medida tipográfica (18,044 mm) equivalente a quatro cíceros. O cícero, de 4,512 mm, tem este nome porque foi o caracter utilizado em 1469 na edição de De Oratore, de Cícero, impressa por Johann Schoffer, neto de Johann Fust. Seu avô, advogado, ourives, agiota e impressor, financiou Johannes Gutenberg, a quem executou judicialmente por dívidas, levando o inventor à falência, enquanto ele ganhava muito dinheiro com a genialidade do outro.

Também a remuneração oferece algumas luzes. O imperador Diocleciano fixa o salário do professor de retórica em 250 denários. A palavra dinheiro veio do latim denarium, moeda de prata que valia dez asses. O asse era de cobre. Um professor de línguas recebia 200 denários. Um taquígrafo, 75 denários, e um mestre de caligrafia, 50 denários.

Liber, livro, designa a película entre a madeira e a casca das árvores, e livrarium é aquele que faz as transcrições, chamado também de scriptor, redator, escrivão, origem das palavras portuguesas escritor e escritório, de significados tão diversos! Escritor como autor virá talvez com mais força de subscriptor, aquele que ao subscrever uma obra, a autentica, declarando-se autor, de auctor, do verbo agere, criar, fazer.

Para todos aqueles que estão interessados em desvendar e refazer os caminhos do livro e da escrita, recomendamos com entusiasmo a leitura deste livro de Dom Paulo Evaristo Arns.

 

Fonte: Observatório da Imprensa

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