Ensaiando

Esperar vivendo ou vivendo por esperar?


semente

A Esperança é o fermento do amor.” (Santo Agostinho in De bon.vid.20,25)

          Nesse trocadilho proponho e convido a uma reflexão que a frase pode oferecer. Decepção é algo que só acontece a quem vive e vive com esperança e sem receio em sua busca por um amanhã mais pleno, que traga alegrias desconhecidas a serem compartilhadas com alguém especial. Santo Agostinho disse que a "esperança é o fermento do amor", poderíamos também dizer que a procura do amor sem esperança é certeza do bolo ‘solado’ dentro do forno.

          Que sentido então haveria de convidar alguém para dançar? Chamar para sair junto com os amigos ou ir sozinho numa sexta-feira? Ou curtir aquela troca de olhares e deixar a conversa rolar solta por vários assuntos, até mesmo desinteressantes, só para poder escutar aquela pessoa falar e estar junto de nós… Se não existe esperança na tentativa, não se vive esses momentos. E se esses momentos não fazem parte de minha busca, estarei vivendo uma espera(nça) passiva, enterrando talentos na terra e esperando a ação de Deus ao invés de agir juntamente com a graça (que passa?)

 

“A esperança é quando a dor presente nos faz tentar outra vez”.

(Chico Science, 1966-1997)

 

          Eis um dilema… ? Ou Será a mesma coisa?

          Na espiritualidade cristã, fala-se muito em esperar, em aguardar. Mas o que é, e para que serve a esperança? O amor-caridade é a base de qualquer ação daquele que se diz cristão. É o amor mais puro que nosso coração possa espelhar e refletir.

          

          Muitas vezes penso o quão diferente vejo várias das questões levantadas por alguns irmãos e irmãs cristãos. Respeito o ponto de vista e o ponto de sentir de cada um, mas sinceramente creio que possam existir outras formas lícitas de enxergar e viver essa questão. Antes mesmo do final de semana antepassado eu já pensava em algo para partilhar a esse respeito, mas nada estava lá muito definido. Em alguns momentos meditei a postura e atitude do cristão diante do dom gratuito de Deus. E essa postura pode sim ser suplicante, interativa e PARTICIPANTE. São Tomás de Aquino dizia que a graça infinita e perfeitíssima de Deus age na natureza humana, pecadora e limitada.

          "Estas situações reais ocorrem quando duas abordagens são possíveis e defensáveis tecnicamente, existindo dúvidas quanto a adequação moral de cada escolha. Muitas vezes ocorrem falsos dilemas, pois as situações propostas não são equivalentes ou por que existem outras possibilidades, além das duas" colocadas em questão. Muitas vezes uma solução criativa afasta a ocorrência do dilema. Existem maneiras participativas de se viver a esperança cristã.

          Segundo o Dicionário Aurélio, um dilema ocorre quando se utiliza um argumento que coloca o adversário entre duas proposições opostas. Pode ser, igualmente, uma situação embaraçosa com duas saídas difíceis ou penosas. Viver orando novenas na rede da espera ou fazer da vida oração? Os bentianos certamente nos dariam essa pista: Ore et Labore.

           De acordo com Walter Sinnott-Armstrong, 1988, citado por Sottomayor Cardia, dilema moral é qualquer situação na qual simultaneamente: a) há para o agente o dever moral de adotar cada uma das duas alternativas; b) nenhum dever moral é preterido em termos moralmente relevantes; c) o agente não pode adotar conjuntamente as duas alternativas; d) o agente pode adotar separadamente qualquer das duas alternativas.

Um dos dilemas mais conhecidos da literatura universal talvez seja o vivido por Hamlet (ato 3, cena 1):

Ser ou não ser, eis a questão !
Que é mais nobre para o espírito sofrer:
os dardos e flechas de uma sorte ultrajante,
ou tomar armas contra um mar de calamidades
e, resistindo, por-lhes fim ?

Um outro dilema muito citado, especialmente em estudos de desenvolvimento moral, é o Dilema de Heinz, proposto por Kohlberg:

           Uma mulher que estava a morte devido a um tipo de câncer. Uma droga pode salvá-la, uma nova fórmula que um farmacêutico de sua cidade havia desenvolvido. O farmacêutico  está cobrando $2000,00 pelo medicamento, cerca de dez vezes o preço de custo. O marido desta senhora, chamado Heinz, procurou todas as pessoas que conhecia para pedir dinheiro emprestado, mas conseguiu apenas metade da quantia necessária. Ele falou com o farmacêutico que a sua esposa estava morrendo e pediu que lhe vendesse a droga mais barato ou que deixasse para complementar o pagamento posteriormente. Mas o farmacêutico disse "Não!".  O marido ficou desesperado e arrombou a farmácia para roubar a droga para sua esposa. O marido deveria fazer isto? Por que?

          "Segundo Kohlberg, o marido da senhora que estava doente, tinha apenas duas saídas possíveis (dilema): deixar a sua esposa morrer por falta do remédio ou roubar o remédio. Segundo a proposta original o dilema era entre o dever de salvar uma vida e não roubar. Kohlberg propunha que a opção por salvar a vida era superior a de não roubar, e a sua utilização era justificativa ética da autonomia do indivíduo, que estaria situada acima das regras morais e legais. Ele utilizava o  raciocínio de que estes deveres – salvar uma vida e não roubar – são deveres prima facie, e não de deveres absolutos utilizado por Kant. Weston levantou inúmeras outras alternativas a esta situação, retirando-lhe a característica dilemática."

          Muitas vezes leio a "espera" em Deus do cristão como algo que aguardamos deitados na "rede" tomando água de coco, indo às missas dominicais e rezando um pai nosso todos os dias e uma novena de quando em vez. Penso sim, creio e vivo assim, na “espera missionária", que aguarda na esperança, porém inquietamente quer ser co-participante da graça de Deus. E creio que o próprio Senhor deseja nossa participação em sua graça. Recordando mais uma vez Sto. Tomás de Aquino: "A graça age na natureza". Ou seja a forma como nos abrimos, recebemos e "multiplicamos" nossos talentos recebidos é o que faz o resultado e efeito da graça do Senhor em nós. Não me refiro aqui à chamada Graça habitual, aquela cotidiana, que todos (independente de credo) recebemos diariamente, mas a graça santificante na filiação do Senhor.

          Portanto o dilema provisório que proponho é: "Esperar vivendo ou vivendo por esperar?" Mais uma vez Agostinho me envolve em suas reflexões ao dizer que “A vida de um bom cristão é um ato ininterrupto de esperança. Desejando e esperando, amplia a capacidade de tua alma para o tempo da verdade.” (Santo Agostinho in Epist. Joan.5,7)

          Quanto mais uma pessoa é rígida e amargurada, tanto mais as pessoas vão se afastando dela. Mas, ao contrário, quando mais se deixar moldar por Deus, tanto mais vai transformando tudo ao seu redor.

          Se nos enchermos de máscaras e nos escondermos do mundo usando algum legalismo bíblico, vamos nos tornar pessoas cada vez mais infelizes e fechadas. É preciso levantar, abrir o coração, primar pela simplicidade e transparência no tratamento com os outros, sair do ponto em que estamos parados e reconhecer que precisamos de Deus, da mesma maneira que precisamos do convívio das outras pessoas.

          Em relação à nossa expectativa de vida, temos duas escolhas a fazer: ou esperamos o tempo de Deus, ou nos precipitamos em nossos próprios caminhos. A espera em Deus deve ser sensata e paciente. Essa mesma espera, porém, não deve ser passiva na expectativa, como quando esperamos ansiosos pelo avião no saguão do aeroporto, ou pelo ônibus, na rodoviária. Esperemos em Deus, mas trabalhemos. Deixemos Ele trabalhar em nós e Ele trabalhar conosco. Deixemo-nos lapidar pelo Altíssimo. Ele é o dono do ouro e da prata e provará a pureza de nossas intenções, buscas e necessidades tal qual como a prata e o ouro são provados no fogo.

alegria

          "Santo Agostinho escreveu estas palavras: "Que a vossa vida cante!". Sim, Deus nos quer alegres! Mas como permanecer alegres interiormente, quando temos conhecimento do sofrimento de inocentes, quando ao nosso lado alguns conhecem provações incompreensíveis? Uma comunhão com o Espírito Santo nos torna mais sensíveis para partilhar e compreender o sofrimento dos outros. Quem procura seguir Jesus Cristo está simultaneamente em comunhão com Deus e em comunhão com os outros. A oração é uma força serena que nos trabalha interiormente e nos agita. Ela não nos deixa entorpecer diante do mal. É na oração que vamos buscar as indispensáveis energias de bondade, solidariedade, compaixão. Em qualquer situação, o Evangelho nos chama a uma atitude fundamental, que é a de nos abandonarmos a Cristo. Assim, há uma escolha a fazer, uma decisão a tomar. Que decisão? A de viver na gratidão para com Deus. Sim, com uma alegria interior, constantemente renovada. Para isso, precisamos de um espírito determinado."

 

“É preciso ficar claro que a desesperança não é maneira de estar sendo natural do ser humano, mas uma distorção da esperança”.

(Paulo Freire)

 

          É importante que levemos em consideração também todo espaço de partilha, seja fórum, e-mails, blog, sala de aula, na balada, no trabalho ou na porta do vizinho. A relação entre a diversidade, a esperança e o desejo, que em Santo Agostinho estão ligadas pelo simples fato de que todas são apenas moções da Misericórdia Divina frente ao gênero humano e a toda sua criação.

          Todo o sentimento de que a esperança é o desejo da alma (cf. Santo Agostinho in Psalm.62,5) vem da sua própria experiência de conversão, onde a Esperança em Deus foi quem o sustentou em seu caminho de volta ao Pai e o fez aceitar os desafios de sua missão junto aos homens e mulheres criados por Deus. "Toda minha esperança se estriba em tua misericórdia. Dá-me, Senhor, o que pedes e pede-me o que quiseres.” (Santo Agostinho in Conf.10,29). É por estas razões que a esperança se torna *ativa* e se torna fundamental na humanidade pois faz com que as pessoas progridam em suas capacidades para a sua própria realização pessoal e se tornem responsáveis uns pelos outros e honrem a Deus com sua própria vida.

          “Quem espera sempre alcança?” Talvez não! Como assim?? Já interpelariam alguns afobadamente. Para nós que acreditamos na Revelação Cristã, na esperança da vida eterna e da construção do Reino que começa desde já ao lado dos irmãos e irmãs neste mundo, convém perguntar "Quem espera sempre ama?"  Aquele que ama, espera sem se cansar, pois a sua meta não é alcançar, mas amar no amor que tudo se realiza. Já dizia Agostinho: "Cada homem é aquilo que ama." (De. Div.Quaest.83,35). Então espera e ama e você alcançará a sua meta e se realizará como filho e filha do Deus da Esperança.

          Aprendamos a esperar com paciência o tempo de Deus e que brilhe em todos nós, tal como a luz de um astro em meio a esta geração corrompida pelo mal, o brilho intenso do Espírito Santo em nossas vidas, permitindo que Ele transpareça e nos envolva, tornando-se em nós uma só beleza espiritual aos olhos de quem nos enamoramos.

           Valendo recordar o profeta em sua mensagem: “Mas os que esperam no Senhor, renovarão as suas forças. Subirão com asas, como águias, correrão, e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão”. (Isaias 40, 29-31)

Paz e Bem,

Guto

—————

* ps:  reflexões inspiradas após a leitura da citação do prof. José Roberto Goldim, em texto do frei Arthur Vianna Ferreira e no PHN que participei no final de janeiro, um anos desses, junto com um amigo.

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2 comentários em “Esperar vivendo ou vivendo por esperar?

  1. Frei Arthur Vianna
    domingo, 22 abril, 2012

    Olá Guto.
    Fico feliz que um texto meu tenha te inspirado tanto.
    Parabéns.
    Abraço Fraterno
    Fr. Arthur Vianna Ferreira,osa
    freiarthur@ig.com.br

    Curtir

    • Guto Santos
      segunda-feira, 23 abril, 2012

      Olá! Que a inspiração sempre desacomode nossas idéias e olhares.
      Obrigado pelo seu comentário.
      Shalom!

      Curtir

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Publicado às quinta-feira, 15 julho, 2010 por em CroniCometando, Espiritualidade, Refletindo e marcado , , , , .

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