Ensaiando

Rosa metafísico


(Luiz Paulo Horta)

 

Grandes sertões veredas

Muito já se escreveu sobre o valor literário de "Grande Sertão: Veredas", a obra-prima de Guimarães Rosa que completou 50 anos de lançamento em 2006. Mas pouco se falou do seu componente místico, ou metafísico. Entrevistado, há muitos anos, por um jornalista alemão, o próprio autor apontou essa vertente "metafísica" como sendo a mais importante do livro. Trechos selecionados do "Grande Sertão", abaixo, podem dar uma idéia do que isto significa.

“-  Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim com o ruim, terminam  por as espinheiras  se quebrar – Deus espera essa gastança. Moço! : Deus é paciência! O contrário, é o diabo. Se gasteja. O senhor rela faca com faca – e afia – que se raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece.  Antesmente preciso.  Deus não se comparece com refe, não arrocha o regulamento. Pra quê ? Deixa :bôbo com bôbo – um dia, algum estala e aprende : esperta. Só que às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta …”

grosa01

“ O senhor… Mire, veja : o mais importante e bonito, do mundo, é isto : que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior . É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa : o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço ! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo : ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

arvore do sertao

“ `Às vezes eu penso : seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição , e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até a hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça : “ Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…” ciente me respondeu. “

“ Refiro ao senhor : um  outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus ? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre  é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é contra todos os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas , se não tem Deus, então a gente não tem licença de coisa nenhuma. Porque existe dor. (…)

“ Até para a gente se lembrar de Deus, carece ter algum costume.”

“ Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.”

homem do sertao

‘’ ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência: para penar, não se carece: bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque. Digo ao senhor : tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta,  a gente sobe, a gente volta! Deus resvala ?: Mire e veja. Tenho medo ? Não. Estou dando batalha. É preciso negar que o “Que-Diga” existe. Que é que diz o farfal das folhas ? Estes gerais enormes, em ventos, danando em raios, e fúria, o armar de trovão, as feias onças. O sertão tem medo de tudo. Mas hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante, quero dizer. O senhor escute o buritizal. E meu coração vem comigo.”

Guimaraes Rosa

“ O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria e inda mais alegre no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será ? É o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.”

‘’Para trás, não há paz.”

“ Sosseguei de meu ser. Era feito eu me esperasse debaixo de uma árvore tão fresca.”’

‘ O existir da alma é a reza.”

“ O que muito lhe agradeço é a sua fineza de intenção.”

 

 

Fonte: Amai-vos

 

 

 

 

Mais sobre o assunto:

Título: Bem e mal em Guimarães Rosa
Organizadores: Eliana Yunes e Maria Clara Lucchetti Bingemer
Número de páginas: 146
Formato: 14 x 21 cm
Coeditor: Editora UAPÊ
Coleção: Teologia e Ciências Humanas n.68

Bem e mal em Guimarães Rosa (Editora PUC-Rio/Editora UAPÊ), organizado por Maria Clara Bingemer e Eliana Yunes, promove o encontro da literatura com a teologia em artigos de grandes especialistas dessas duas áreas do conhecimento humano. No livro, produzido em uma perspectiva interdisciplinar, encontram-se uma leitura teológica de textos de Guimarães Rosa e uma leitura da Teologia a partir da obra do escritor, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 2008.

Através de diferentes análises sobre o discurso rosiano, os autores convidam o leitor a refletir sobre a angústia humana, gerada pela necessidade de tomar decisões éticas. Diante de personagens e situações criados por Guimarães Rosa, tentam desvendar os mistérios da eterna luta entre o bem e o mal, apresentada tanto no sertão transformado em campo de batalha quanto dentro do coração humano. Passam, também, pelos pactos de que vive o homem: Deus e o diabo, eu e o outro, iguais e diferentes.

No prefácio, Vilma Guimarães Rosa, filha de João, apresenta uma curta biografia do pai, revelando peculiaridades presentes no cotidiano de um escritor que, em sua travessia entre o particular e o público, criou uma linguagem que marcou para sempre a Literatura Brasileira.

Novas e instigantes imagens de Grande Sertão: veredas são reveladas a partir das leituras do grande clássico presentes nos textos de Cleide Maria de Oliveira, Delambre Ramos de Oliveira, Josias da Costa Junior, Leonardo Vieira de Almeida, Marco Antonio G. Bonelli e Maria Clara Lucchetti Bingemer. Os artigos de Eliana Yunes e Stella Caymmi trazem análises sobre dois contos de Guimarães Rosa: A hora e a vez de Augusto Matraga, publicado em Sagarana,e A terceira margem do Rio, publicado na coletânea Primeiras estórias.

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Publicado às quinta-feira, 7 outubro, 2010 por em Espiritualidade, Refletindo, Teopoética e marcado , , , , .

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