Ensaiando

Esterilizar os “não aptos”


 

Vale recordar que já se chegou a categorizar o paciente epilético como “não apto” (1920-1930), sendo sujeito de esterelização, a fim de “eliminar” a epilepsia. Na época, a epilepsia, era vista ao lado como semelhante à “sífilis, a criminosos, alcoolistas, usuários de drogas, leprosos, baixa inteligência, tuberculose…”. Até mesmo casos foram a justiça para solicitação de esterelização dos indivíduos epiléticos. (cf. Aspectos Éticos da Autonomia do Paciente com Epilepsia – http://www.ufrgs.br/bioetica/epileps.htm – texto de Bioética e Epilepsia do professor da UFGS)

Eugenia com o pretexto de proteger as crianças

Pe. John Flynn, LC – ZENIT

ROMA, domingo, 19 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – Um sociólogo britânico sustenta que as pessoas “não aptas” deveriam ser esterilizadas, já que não são capazes de criar filhos de maneira responsável.

O professor David Marsland, que ocupa um lugar acadêmico na Universidade Brunel, de Londres, e na Universidade de Buckingham, fez estes comentários no dia 26 de agosto na série Iconoclasts da BBC Rádio 4. O programa se apresentava como um lugar para “pensar o impensável”.

Segundo Marsland, os não aptos incluem dependentes químicos e pessoas com problemas psicológicos. Deveriam ser esterilizados de maneira permanente, para evitar a negligência e o abuso com os filhos, indicou.

Quando as pessoas estão em tais condições e quando estas situações persistem, inclusive depois do tratamento de um período de 5 anos, se é provável o abuso de crianças, afirmou, a única solução é esterilizar tais indivíduos. “É preciso prevenir que os infratores tenham mais filhos e multipliquem suas vítimas”, disse.

Após a apresentação inicial da sua postura, participou de um debate com uma equipe de comentaristas, que estava composto por trabalhadores sociais e outros profissionais muito críticos com suas propostas. No entanto, quando, no final dos 45 minutos de programa, foi-lhe perguntado se algo do que havia ouvido lhe fizera mudar suas ideias, ele replicou que não, dizendo que estava mais convencido que no começo.

“E não temos poucas pessoas, então não há necessidade de usar este direito (o direito de ter filhos), ainda que seja um direito, somos muita gente”, concluiu.

Marsland não ficou sozinho na hora de propor esta linha de atuação tão drástica, ainda que no passado já se propusesse para os dependentes de álcool e drogas.

  • Esterilizados por dinheiro

Em 1997, Barbara Harris estabeleceu um projeto nos Estados Unidos chamado Project Prevention. Dava aos dependentes químicos 300 dólares se aceitassem usar a anticoncepção a longo prazo ou ser esterilizados. Segundo seu site, o projeto se tornará internacional e dois membros da equipe visitarão o Reino Unido no final de setembro para trabalhar em um documentário e visitar diversas organizações.

Um artigo publicado em 17 de abril, no site Time.com, analisou o trabalho de Project Prevention. Indicou que a organização havia trabalhado até agora com 3.371 adictos nos Estados Unidos. Destes, 1.253 aceitaram a esterilização, enquanto os demais optaram pela anticoncepção.

O artigo também informou sobre as críticas ao translado ao Reino Unido. “Suas práticas são moralmente repreensíveis e irrelevantes”, afirmou Simon Antrobus, diretor executivo de Addaction, uma organização de tratamento para drogas e álcool de Londres.

Uma organização dos Estados Unidos, National Advocates for Pregnant Women (NAPW), acusou Harris de estender “propaganda perigosa”, segundo informou a BBC em 8 de fevereiro.

Segundo a reportagem, NAPW sustentou que Harris está envolvida em um projeto de engenharia social, ao definir uma categoria de pessoas como não apta para ter filhos. De fato, seus críticos compararam o que Harris faz com o programa nazista de eugenia, que não somente se centrava em exterminar os judeus, mas também contemplava o assassinato de muitos ciganos e doentes mentais.

Mais reações negativas foram despertadas por uma viagem de Harris ao Reino Unido em maio, para promover seu trabalho. Uma mulher da Escócia se queixou à polícia após ter sido contatada por representantes de Project Prevention, segundo informou a BBC em 23 de maio. Ainda que Deborah Wilson houvesse abandonado uma clínica de saúde, foram-lhe oferecidas 200 libras (309 dólares) se aceitasse ser esterilizada. A mulher disse que não é dependente de drogas e que saiu da clínica simplesmente após visitar seu médico. Também se queixou de que, naquele momento, ia com seu filho de 9 anos e que não deveriam ter proposto um tema como este na frente dele.

Estas críticas mordazes serviram de pouco para dissuadir Harris. Segundo um artigo sobre seu trabalho, publicado em 12 de junho pelo jornal britânico Guardian, Project Prevention propõe começar seu trabalho no Haiti.

“Vamos oferecer injeções de ‘Depo’ a cada 3 meses a mulheres, em troca de vales-refeição”, declarou Harris ao Guardian. Com ‘Depo’, refere-se a injeções hormonais de Depo-Provera, utilizado como um método anticoncepcional.

  • Portadores de deficiência

O objetivo não são somente os dependentes químicos e doentes mentais. Pouco antes da emissão dos argumentos de Marsland, um juiz do Reino Unido ditou sentença contra um conselho local em suas tentativas de esterilizar uma mulher com baixo índice de inteligência.

O plano era que a polícia tirasse uma mulher casada (cujo nome não se menciona) do seu lar, e depois a sedasse e esterilizasse contra sua vontade, segundo informou o jornal Telegraph em 18 de agosto.

O juiz Bodey concordou com o fato de que ela carecia de capacidade mental para tomar decisões importantes em seu tratamento médico. Estabeleceu, no entanto, que o plano para evitar que esta mulher de 29 anos tivesse filhos “apresenta profundas questões sobre a intervenção do Estado na vida privada e familiar”. No começo deste ano, um tribunal da Austrália adotou a postura oposta. O Tribunal da Família aprovou que os pais de uma menina de 11 anos com deficiências profundas, Angela, fosse submetida a uma histerectomia, informou em 9 de março o jornal Australian.

“Sempre se trata de meninas com deficiência”, afirmou Carolyn Frohmader, presidente de Women with a Disability Australia. Sua organização trabalhou durante anos para que se proibisse a esterilização de crianças com deficiência. “Quando se revisam os casos, nunca há um menino, não importa se tem ou não deficiências, que tenha de ser esterilizado”, destacou.

Seus pais acharam que as menstruações da sua filha acelerarariam sua epilepsia e quiseram aliviar sua doença.

  • Eugenia

Ainda que algumas destas petições de esterilização possam parecer o ponto de vista de um pequeno grupo de extremistas, são simplesmente a extensão lógica de uma mentalidade eugênica que se estendeu nos últimos anos.

Um exemplo disso é o que ocorreu quando grávidas detectaram Síndrome de Down. Os números recentes do Estado australiano de Victoria mostram que o número de mulheres que interromperam sua gravidez após descobrir que seus bebês tinham Síndrome de Down quase se triplicou em uma década.

Segundo um artigo publicado em 22 de julho de 2006 no jornal Herald Sun, houve 146 abortos – incluindo 5 em um momento avançado da gestação – por Síndrome de Down, em comparação com os 54 de 1995. O número de abortos de bebês com Síndrome de Down foi duas vezes maior que o de bebês que nasceram com a doença.

No dia anterior, o jornal informou que dois casais de Victoria processaram seus médicos por terem errado no diagnóstico de Síndrome de Down dos seus bebês não nascidos, negando-lhes a oportunidade de abortar.

Outra manifestação desta mentalidade é o desejo de ter filhos que sejam mais inteligentes ou bonitos. Willian Saletan, em um comentário publicado no dia 29 de março, no site Slate, mostrou os resultados de uma pesquisa da Universidade de Nova York.

Revelou que cerca de 12% dos pacientes que buscam assessoria genética afirmavam que analisariam os embriões para selecionar altura, inteligência e capacidade física. “Este é o número dos que admitem que fizeram isso”, acrescentou.

Saletan também citou uma análise de Aaron Levine, professor no Georgia Institute of Technology. Levine examinou as propagandas dos jornais universitários que buscavam doadores de óvulos para os tratamentos de fecundação in vitro. Um significativo número deles ofereceu mais dinheiro a mulheres que tivessem mais probabilidade de ter filhos mais bonitos ou mais atraentes, baseando-se no histórico acadêmico da doadora e em sua aparência.

Desde então, apareceram notícias sobre uma organização da Dinamarca chamada Beautiful People, que agora oferece um serviço de fertilidade. Os membros do grupo, que só são aceitos quando se julga que são suficientemente atraentes, oferecem seu esperma e seus óvulos a pessoas menos atraentes, para que os comprem, com a esperança de ter uma descendência melhor.

Uma vez que se perde a convicção da dignidade inata da pessoa humana, só há um passo entre querer um filho mais inteligente e esterilizar o “não apto”.

Fonte: http://www.zenit.org/article-26074?l=portuguese

 

 

 

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