Ensaiando

Abril despedaçado


Quem por acaso ainda não assistiu, vale a pena reservar um momento para navegar nesse filme e se permitir ir até onde for levado. Dos vídeos abaixos, destaco a bela canção interpretada pelo Gilberto Gil. Considero um clássico do nosso cinema nacional.

 

“Abril despedaçado” um filme para se discutir em grupos

22/10/2010 – Miguel Pereira*

ABRIL-DESPEDACADO.jpg

Um dos filmes mais estimulantes de Walter Salles é Abril despedaçado, produzido em 2001 e exibido no Festival de Veneza do mesmo ano. Hoje, está disponível em DVD e pode ser apreciado à distancia com interpretações mais apropriadas ao contexto de violência que vivemos nos dias de hoje. Baseado no livro homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré e ambientado no Nordeste brasileiro de 1910, Abril despedaçado é uma incursão sobre o ciclo fechado da vingança entre famílias. No entanto, tem mais de tragédia grega do que drama de violência. Ao mesmo tempo é uma reflexão sobre o destino humano e sua relação com o processo de redenção e santificação. A santidade é uma atribuição dada a determinadas pessoas que são exemplo e modelo de fé. Mas, é também um conjunto de comportamentos existenciais adotados por um sujeito. É, portanto, algo inerente a ele. Assim, o caminho para a santidade não é um só. Depende de quem o trilha.

 

No início do cristianismo, a santificação era atribuída aos mártires da fé. O primeiro está descrito nos Atos dos Apóstolos e se refere a Santo Estevão, o protomartir cristão que foi apedrejado no ano 35. No caso do filme de Walter Salles, dá-se algo parecido. Não exatamente igual, mas similar. Embora a vendeta seja o móvel das ações, o sangue do inocente corta o ciclo e salva a todos. No enredo do filme, duas famílias disputam ancestralmente o domínio das terras. E por elas matam e morrem. Mas, não se trata apenas de uma disputa material. O que está em jogo é o sentido moral e o jogo da honra. Em essência, esse é o tema central do livro de Ismail Kadaré que Walter Salles interpreta introduzindo um novo personagem redentor, o menino sem nome, Pacu. Assim, até que alguém chegue para estancar o ciclo de mortes, ele continua indefinidamente. Ao assumir o lugar do irmão, o ainda adolescente Pacu torna-se uma espécie de enviado que, pelo batismo de sangue, fecha esse ciclo. Introduz uma nova etapa na vida de todos. Traz a esperança de um novo tempo.

Além desse sentido bíblico que lhe conferiu o prêmio Margarida de Prata da CNBB, Abril despedaçado é de uma beleza estética incomum no cinema contemporâneo. Cuidadíssimo na produção e realizado com um desejo de reconciliação com o mundo espiritual, o filme está cheio de referencias a pessoas e situações caras ao cineasta. Mesmo que já lançado há quase dez anos, pode ser encontrado nas locadoras. Vale ser assistido e discutido nos cineclubes paroquiais das nossas comunidades.

 

 

*Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.

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2 comentários em “Abril despedaçado

  1. Apryl Newes
    segunda-feira, 25 outubro, 2010

    Interesting article and one which should be more widely known about in my view. Your level of detail is good and the clarity of writing is excellent. I have bookmarked it for you so that others will be able to see what you have to say.

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    • Guto Santos
      quarta-feira, 27 outubro, 2010

      Olá! Grateful for its commentary! Thank’s!

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