Ensaiando

A Informante


        “The Whistleblower”, lançado em agosto de 2011 (“A Informante”) é um filme rodado no Canadá e Alemanha), dirigido por Larysa Kondracki, com roteiro de Larysa Kondracki, Eilis Kirwan.

A Informante - cartaz

        Este seria mais um daqueles corriqueiros filmes “inspirado em fatos reais”, que tão bem conhecemos, caso não fosse uma história que pincela assunto tão delicado. Um tanto silencioso quanto monstruoso e recorrente no mundo inteiro.

        O o roteiro narra um caso que é considerado um dos “maiores escândalos da ONU“. Daí podemos imaginar a desmemória junto com os “panos quentes”. Pense se você por acaso leu, assistiu ou lembra de alguém ter falado – mesmo que vagamente – algo a respeito, por estes anos.

        O filme narra a história de Kathryn Bolkovac (Rachel Weisz), uma policial esforçada e dedicada, que aceita trabalhar para as Nações Unidas como pacificadora na Bósnia de 1999, que passa por uma reconstrução pós-guerra. Seus desejos de ajudar a reconstruir um país devastado são destruídos quando ela fica face a face com a dura realidade: uma vasta rede de corrupção e tráfico sexual que é encoberta pela ONU.

(parte do elenco com a protagonista real da história ao centro – de vermelho)

 

        A história revela e denuncia uma das industrias que mais crescem no mundo todo, segundo a imprensa e relatórios de orgãos humanitários internacionais: o tráfico de mulheres a fim de exploração sexual.

        Kathryn leva a investigação adiante, sendo desacreditada e demitida por expor o envolvimento dos agentes da ONU no tráfico sexual no país. Posteriormente ela processou seus empregadores e ganhou uma boa indenização, segundo informação do pessoal do Manhattan Connection. A história antes de ser filmada também “virou” livro nos EUA.

        Recentemente conversando com uma amiga que passou longo período no exterior, ouvi o relato dela que chegou a ser aconselhada a não viajar e/ou frequentar sozinha determinados países e lugares. Mesmo não sendo regiões de guerra civil ou de conflitos abertos, foi recomendado às mulheres que, num país de maioria muçulmana, não ficassem sozinhas na presença de homens do lugar. E o lugar no caso seria um mercado de antiguidades e afins. Esse “conselho” se deu possivelmente devido a costumes locais, considerados comuns àquela cultura, mas que aos olhos da cultura ocidental, constitue assédio. Esse relato do mercado ocorreu, por exemplo, no Marrocos. Mas não é difícil imaginar algo semelhante no Egito, por exemplo.

(Eleanor Roosevelt com a Declaração dos Direitos HUmanos, 1949)

        Lembrando que mesmo na ausência da violência/ contato físico é comum ocorrer o o assédio sexual, que pode ser traumático, pelo fato de expor às mulheres a comentários humilhantes e situações vexatórias, sentindo-se muitas vezes ameaçadas.

        Pode não ser difícil imaginar situações de aliciamento semelhantes, na Ucrânia (como relato do filme), Budapeste, Bósnia, Sudão, Darfur ou Leste europeu. Um estudo estatístico “menciona 40 mil casos de estupro documentados em 1993, durante o conflito na Bósnia-Herzegovina. O número de mulheres kosovares estupradas em um ano, entre agosto de 1998 e agosto de 1999, no conflito com o governo iugoslavo, pode ter chegado a 45 mil.

“Em uma amostra de ruandesas entrevistadas em 1999, 39% declararam ter sido estupradas durante o genocídio de 1994, enquanto a proporção daquelas que conheciam uma vítima de estupro chegava a 72%. Estimativas semelhantes são colhidas em conflitos no Burundi, na República Democrática do Congo, na Colômbia, na Libéria e, mais recentemente, na região de Darfur, no Sudão.”

   (ONU cobra ação internacional contra estupro em guerra)

         Nos massacres de Bogoro (uma pequena cidade na província de Ituri, na República Democrática do Congo (RDC) e de Ituri, também no Congo), a alguns anos atrás – não se trata de imaginar-se – os conflitos que dividiram a antiga Iugoslávia. Em Ruanda e nas guerras civis dos países africanos e mais recentemente – agora – em Mianmar, Congo e na Líbia temos relatos de violência cometida nestes mesmos padrões, tantos pelos locais, como pelas forças estrangeiras.

        Tudo aliado ao estupro realizado como “arma de guerra” das mais cruéis e recorrentes que pode-se ter relato no século passado e no século presente. Agressão realizada muitas vezes por aqueles que deveriam representar os poderes da lei, da ordem e da solidariedade, como no caso dos “capacetes azuis” ou “boinas azuis”, em forças de “pacificação” em países da África, por exemplo.

“Tropas da ONU também foram acusados de estupro, abuso sexual ou solicitar prostitutas durante várias missões de paz, começando em 2003, no Congo, Haiti, Libéria, Sudão, Burundi e Costa do Marfim.”

(Wikipedia/Referências: 25ª a 30ª)

 

 

       “Siga o dinheiro”, esta fala de um desses filmes americanos de investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro dá a pista necessária, caso um dia ocorra uma investigação ampla e séria.

       Infelizmente o tráfico de mulheres possui a gerência do mesmo alto escalão que continua lucrando absurdamente com a guerra, mesmo que indiretamente. Seja no Iraque, Afeganistão ou ainda lugares em outras partes do mundo, abriram-se “licitações” para empresas “reconstruírem” as nações assoladas pela guerra.

       De alguma forma e em algum lugar existe a convergência do tráfico e exploração sexual de mulheres, dos variados organismos que exploraram e lucram com a pornografia internalmente, da lavagem do dinheiro do tráfico internacional de drogas e da corrupção nos altos escalões dos países envolvidos direta e indiretamente com a ONU e organizações internacionais de semelhante ação. Não que uma entidade responda por um “adjetivo coletivo”, mas a omissão, falta de empenho e ausência de rigor, não só em apurar rapidamente mas em cair no absurdo de punições brandas inaceitáveis para crimes de tamanha crueldade humana.

       Retornando ao filme veremos que este narra o drama e a dinâmica ampla de uma investigação que inicia pequena e que se apresenta em proporções mostruosas, a ponto de nem com denúncias feitas à imprensa, nem com medidas paliativas e superficiais tomadas após tudo vir a tona atraves da imprensa, nem assim, os culpados e envolvidos diretamente com tal situação tenham sido trazidos à justiça. Muitos nada sofreram e tão somente continuam a ocupar os mesmos cargos que antes da denúncia.

 

Espero que ao menos as tropas brasileiras nunca sejam acusadas de tão vil procedimento, como o que quatro capacetes azuis da força de paz da ONU, estão sendo acusados de violentar um jovem adolescente no Haiti. E se não bastasse isso a própria ONU, numa “investigação inicial”, diz que tudo não passou de uma “brincadeira pesada” dos soldados. Fato esse documentado num suposto vídeo disseminado pela internet. As “imagens são fortes. Gravadas por um celular e difundidas na internet, elas mostram o suposto abuso sexual de um jovem haitiano de 18 anos por capacetes azuis uruguaios da ONU. O jovem, com as calças abaixadas, é mantido de bruços, imobilizado por dois soldados que seguram seus braços, enquanto um terceiro, sem camisa, se ajoelha, entre risos quase generalizados.” (cf. site do Itamaraty – 06/09/2011)

        Que os soldados e civis brasileiros das Forças da Paz da ONU, sejam e continuem sendo muito bem selecionados, para que quando em contato com culturas diversas e realidades internacionais de pós-guerra/catástrofe, possam continuar a fazer por merecer em sua conduta humanitária, já que tivemos vários militares brasileiros condecorados em suas ações humanitárias internacionais. A estes heróis humanistas praticamente desconhecidos muita força para transmitir essa paz que o mundo tanto precisa.

Mais sobre o assunto (notícias / referências e estudos)

Kadafi é investigado por uso do estupro como arma de guerra
(TPI também analisa evidências de que soldados teriam recebido Viagra para incentivar violações sexuais)

Recomendo vivamente a leitura do seguinte artigo, principalmente para corrigir a equivocada noção daqueles que possam ainda pensar ser tal violência apenas uma realidade isolada e oportunista:
O estupro como arma de guerra” (cf. no blog o artigo da Sra. Bia)

trechos…

“Em março, Iman al-Obeidi de 26 anos, invadiu o hotel que abrigava jornalistas estrangeiros em Trípoli e acusou milicianos pró-Gaddafi de estuprá-la. Afirmou que foi violentada por dois dias, sendo estuprada por 15 homens diferentes. Ela refugiou-se no Qatar, mas foi deportada. Nisreen Mansour al Forgani, jovem líbia de 19 anos, matou defendendo o governo de Muamar Gaddafi. Foi estuprada por homens de hierarquias superiores, que combatiam ao seu lado. Agora é prisioneira de guerra e teme por sua vida. As mulheres líbias sofrem com o perigo de todos os lados.”

(…) O silêncio geralmente prevalece. Os abusos sexuais contra a mulher na guerra só foram reconhecidos como crimes de guerra depois dos conflitos na Ex-Iugoslávia (1992-1995) e em Ruanda (1990-1996).

Militares em missões de paz da ONU são acusados de 21 casos de exploração e abuso sexual 

Abuso e exploração sexual em missões de paz da ONU
(Estudo da PUC-RJ – Teses abertas – imunidade, limitação das medidas punitivas da ONU …)
– O conceito de abuso e exploração sexual
– a situação da mulher durante e após conflitos armados
– o impacto das missões complexas para as mulheres
– operações de paz no pós-Guerra Fria
– para além da prostituição: as consequências negativas das relações sexuais entre peacekeepers e mulheres locais
– medidas implantadas pela ONU em combate a má-conduta sexual
– as primeiras respostas estabelecidas pela ONU
– O Relatório Zeid
– prevenção, investigação e punição
– treinamento e códigos de conduta

(PUC/RJ Certificação Digital Nº 0710402/CA)

As consequências indesejadas das missões da paz da ONU na forma de violações aos direitos humanos: a questão da exploração e dos abusos sexuais
(PUC/SP – TCC de Caio César Gazarini Cristófalo – 2010)

“Ser estuprada, isso faz de você… uma pessoa sem direitos, uma pessoa rejeitada pela sociedade e agora, na vizinhança onde vivo, é como se eu fosse estuprada todos os dias porque todos os dias alguém me lembra de que eu fui estuprada e de que eu não sou nada, de que eu deveria ficar isolada num canto, de que eu não deveria falar, não devo dizer nada.”
Rose, Haiti (Anistia Internacional, Don’t Turn your back on Girls – Sexual Violence Against Girls in Haiti, 2008)

Tribunal de Haia investiga se Kadafi usou estupro como arma de guerra contra rebeldes na Líbia

Senadoras acusam Mianmar de usar estupros como ‘arma de guerra’ 

Relatório da ONU aponta estupro como arma de guerra

O estupro como arma de guerra

ONU cobra ação internacional contra estupro em guerra

Criminosos e oportunistas tentam se aproveitar da catástrofe

Violência sexual é arma na Colômbia, alerta Anistia

ONU fracassou em evitar estupros em massa no Congo

PIME – Atualidades no Mundo – África

As chamas que consomem as belas aldeias não são belas
(notas sobre uma premiada propaganda da limpeza étnica)

Vídeo do debate do filme “A Informante” no programa Manhattan Connection

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