Ensaiando

A escalada da hipocrisia


Elis

          Sempre guardei uma figura do significado da palavra “hipocrisia”. O hipócrita é o falso, o fingidor. Aquele que finge ter o que não tem. Para o linguista Noam Chomsky, hipocrisia seria a recusa. A recusa de aplicar em nós mesmos valores e cobranças (éticas e morais) que aplicamos a outros.

          E continua, “forma um quadro de auto-engano, que inclui a noção de que a hipocrisia em si é um comportamento necessário ou benéfico, humano e da sociedade.

          “Achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas” (Leandro Karnal, historiador). Achamos que somos um bando de pessoas ordeiras e cordeiras, cercadas por lobos. Achamos que somos um bando de pessoas honestas, cercadas por corruptos desonestos. Achamos que as ideologias são um mal, quando estas apenas refletem o pensamento em ação de pessoas. “Eles eram como sepulcros caiados, que pareciam belos e adornados, mas por dentro estavam cheios de ossos de mortos e imundície.”

          O mito do “homem cordial”, muito pregado e disseminado, costumeiramente mal interpretado, acabou virando o mito do “cidadão de bem amável e simpático” que acessa a internet para se distrair e entreter. Leia-se engano, viva-se mentira!

          Como bem apresenta Antônio Cândido, “o homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva”. E como as aparências vigoram hoje em dia. Saltam aos olhos. Talvez sempre tenha sido assim.

          Até que ponto é verdadeira a imagem da pessoa que “se obriga” a ser simpática com os colegas de trabalho, a frequentar sua igreja, a receber bem a visita indesejada e a oferecer o pedaço do chocolate para o estranho no ônibus. Até que ponto essa mesma pessoa não é a que fala mal de todos pelas costas, muito educadamente e com bom humor.

          Por vezes (também e principalmente na internet) o ódio é gratuito, mas o amor tem o seu preço. Ataques inflamados, palavras cortantes, leituras superficiais. E ai de você se tentar apagar algum desses incêndios ou apelar para a tomada do bom senso. Fácil se deparar com o que o saudoso dom Estevão Bitencourt chamava de “ignorância invencível”. Nenhum apelo, nenhum argumento, nenhum gesto de aproximação fraterna adianta. É bem similar ou a própria ignorância do fanatismo do próprio “eu”.

          Concordo com Luís Nassif quando diz que esse fenômeno (do ódio, da agressão na web) assusta, deprime e merece estudo. E muita gente se debruça sobre ele para tentar trazer luz e entendimento à nova conformação social. E é na internet que reputações se criam, e se destroem, onde o ódio encontra solo fértil e se abre em leque para atingir a qualquer um.

          “A internet brasileira assumiu um tom muito mais agressivo depois das eleições. O perfil das redes sociais mudou, diz Celso Figueiredo, professor de mídias sociais do Mackenzie. Como é fácil a “temperatura subir” (principalmente em redes sociais), muitos preferem não intervir… e mais uma vez os maus ganham espaço e transformam-se em mutantes formadores de idéias, quando não de pensamentos lacrados e atitudes padronizadas num simulacro feroz.

          A bíblica figura do bode expiatório permanece, camuflada e renomeada. Alimentada como quem joga milho aos pombos. Contrasta com a cultura dominante de hoje, de rancor, de vingança. A secularização, que levou ao vazio de valores humanos e religiosos na sociedade ocidental. O ato de solidariedade, honestidade e fraternidade hoje em dia soa como exótico, como exceção, causa estranhamento e facilmente virá manchete.

          A ausência de verdadeiras reformas éticas, os erros nas políticas internacionais, que fizeram vários regimes mudar para pior, os imigrantes tratados como números e não como pessoas, a falta de formação do que supõe o exercício da democracia, a falsa liberdade sem libertação e os direitos humanos, nem tão humanos.

          Talvez na solidão da minha pergunta só eu indague: Será a deformação da herança do início do teatro grego, onde, era comum, um ou mais atores principais, representarem dois papéis na mesma peça, utilizando uma máscara com uma face na frente e outra na nuca? As máscaras tinham uma outra função prática, possibilitavam às pessoas acompanhar a ação cênica através das expressões das mesmas, quando a voz do ator não conseguia alcançar toda a plateia. Eram basicamente dois os gêneros da época, a tragédia e a comédia. Eis o pão e o circo (panis et circenses), o trabalho e a diversão…que talvez até os dias de hoje não se conseguiu alcançar um equilíbrio na vida das pessoas.

“Eu quis cantar, minha canção iluminada de sol.
Soltei os panos sobre os mastros no ar.
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar. São ocupadas em nascer e morrer.

Mandei plantar, folhas de sonho no jardim do solar.
As folhas sabem procurar pelo sol. E as raízes procurar, procurar.

Mas as pessoas na sala de jantar. São ocupadas em nascer e morrer.”

          Se vivemos muito ocupados em nascer e morrer, por vezes esquecemos de viver, de como viver do porque viver…de CONVIVER. Saiamos e convidemos a outros para sair da sala de jantar, a não se preocupar tanto com a seriedade do eu, do meu, mas da leveza e generosidade do nosso, do podemos e do conseguiremos.

“Quero ver o direito brotar como fonte

e correr a justiça qual riacho que não seca”.

(Amós 5,24)

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