Ensaiando

Por que preferimos explicar o mundo como se tudo fosse culpa dos outros?


Culpa

 

(Contardo Calligaris)*

              No amor, na política, no esporte –em suma, na vida– podemos escolher entre dois estilos de interpretação. O primeiro é o estilo paranóico, que consiste em culpar Deus e o mundo, ou seja, os outros, por tudo o que acontece de errado.

               O segundo é o estilo dito “autoatributivo”, que consiste em procurar a causa de nossos percalços em nós mesmos. Para quem pratica o estilo paranoico, os autoatributivos são ingênuos, otários, ignaros das tramas obscuras  ue estariam sendo urdidas contra todos nós.

               Aos olhos dos autoatributivos, os paranoicos, quando não são delirantes, são covardes: acusam os outros para evitar suas responsabilidades. Em geral, meu estilo preferido é o autoatributivo. Não gostei do que aconteceu? O que houve “em mim” que causou ou permitiu esse desfecho?

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               Enquanto isso, o praticante do estilo paranoico prefere o pronome da terceira pessoa do plural: foram “eles”. “Eles” são os banqueiros de Londres e os deputados Fulanos, dizia Mário de Andrade, os corruptos, os políticos, a China que rouba nossos empregos, os americanos imperialistas, os transexuais que atrapalham a paz de nossos banheiros públicos, os intelectuais ou o povo que não sabe votar, tanto faz. “Eles” sempre são os outros, diferentes de nós.

               Conselho básico entre parênteses: para educar uma criança ou um adolescente, é melhor renunciar ao estilo paranoico. “Os professores não gostam de mim”, ou “a aula não estava clara”, ou “não disseram direito sobre o que seria a prova” etc., nada disso interessa. O que importa é (versão autoatributiva) que você não estuda o suficiente. O estilo paranoico é infinitamente mais popular do que o autoatributivo.

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               Donald Trump já ganhou quase a metade do eleitorado dos EUA (e pode ser eleito presidente) num grande exercício de estilo paranoico: você sente que seu lugar na pequena classe média está sendo ameaçado? Pois é, foram eles, os tecnocratas, os banqueiros de Wall Street, a China que produz barato e os estrangeiros que pegam nossos empregos.

” (…) é difícil resistir à conclusão de que este inimigo seja, em muitos aspectos, a projeção do ser; tanto o ideal quanto os aspectos inaceitáveis do ser são atribuídos a ele.”

(O historiador Richard Hofstadter em seu ensaio “O Estilo Paranoico na Política Americana”, publicado em 1964)

               O “brexit” também funcionou recorrendo ao estilo paranoico: de novo, você, lá na Inglaterra rural, sente seu lugar ameaçado? É porque “eles” (os estrangeiros) tomaram conta de nosso país.

               Um grande historiador dos EUA, Richard Hofstadter, escreveu, em 1964, um ensaio crucial sobre “O Estilo Paranoico na Política Americana”, analisando a desconfiança, a suspeita e as teorias conspiratórias na história dos EUA. Só falta acrescentar que o fenômeno não é apenas americano e é mais antigo do que o próprio Hofstadter propõe.

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               Psicólogos e psiquiatras constataram que as formações delirantes são quase sempre persecutórias: na loucura, quando precisamos dar algum sentido ao mundo, imaginamos que somos vítimas (de um complô, de extraterrestres, de ondas malignas, tanto faz).

               De onde vem, então, essa predileção pelo estilo paranoico de nosso entendimento do mundo? Alguns psicólogos evolucionistas acham que, para nossos antepassados caçadores-coletores, que viviam em pequenos grupos, o mais importante era confiar no pessoal da “tribo”. Mais tarde, quando os conglomerados humanos se tornaram maiores e mais numerosos, o que importava mais não era reconhecer as pegadas do búfalo, mas interpretar direito as intenções dos outros, que podiam ser inimigos. Nessa fase, os paranoicos sobreviveriam e os otários sumiriam. Por isso, os genes dos paranoicos teriam chegado até nós.

               Isso deixaria de ser verdade na aurora da Era Moderna. Quando o mundo se expandiu pelo comércio (de Marco Polo ao Mercosul), por mais que assinássemos pactos e contratos, o que fez que as trocas prosperassem foi a confiança, e não a desconfiança (Francis Fukuyama escreveu um livro extenso sobre isso, “Confiança”).

               Talvez o estilo paranoico triunfante do último século seja apenas uma reação passageira à abertura progressiva do mundo e à exigência de confiança nos outros que essa abertura acarreta.

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               De qualquer forma, história da humanidade e evolução à parte, a psicologia clínica também tenta entender por que a maioria prefere o estilo paranoico ao autoatributivo. Voltarei ao tema, mas, desde já, a explicação mais plausível é simples: tentamos preservar a nossa imagem ideal e justificar nossa preguiça e nossa mediocridade. Perdi? Deu errado? Não fui eu, foram “eles”.

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* * *

* Contardo Calligaris é italiano, psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias).

 

Fonte:  Folha

 

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Publicado às quinta-feira, 11 agosto, 2016 por em Cultura e Comportamento e marcado , , , , , .

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